segunda-feira, 8 de março de 2010

A vida à latitude 0º

Caros amigos, desculpem a ausência de notícias, mas nos últimos dias escassearam as oportunidades para vos escrever. Tentarei hoje, após ter passado o primeiro mês, dar-vos uma ideia de como tem sido a minha vida neste país tropical.
No hospital parece finalmente estar criada uma rotina e isso tem-me permitido sentir cada vez mais integrado e mais interventivo. As minhas actividades têm-se dividido entre o Serviço de Urgência e trabalho de enfermaria e, na maioria dos casos, não parece existir, quanto ao tipo de patologias observadas, grande diferença relativamente ao que acontece no nosso país. No entanto, todos os dias sou confrontado, com casos muito graves. Antes de vir sempre ouvi dizer que neste país ninguém passava fome, que a terra era muito generosa e os alimentos muito abundantes. Não tinham razão. Com uma frequência muito superior aquela que se poderia imaginar, surgem casos tão graves de desnutrição, que resultam, vezes demais, em fatalidades, sem que nada se consiga fazer para o impedir. Também o paludismo cobra um preço muito alto e, quase diariamente surgem novos casos. Alguns conseguem tratar-se, outros não… Lidar com esta realidade não tem sido fácil e acho que não conseguirei nestes 3 meses habituar-me. Continuo a sentir uma grande revolta por, ao contrário do que estava habituado, as crianças apenas serem trazidas aos cuidados de saúde quando se encontram muito debilitadas e, muitas vezes, em situações irreversíveis. Mães adolescentes, algumas já com vários filhos, com noções muito pobres sobre saúde, educação e civismo, revelam uma despreocupação chocante pelo bem-estar das crianças. O alcoolismo é um problema tremendo e basta sairmos da cidade para o percebermos. Por toda a parte vemos crianças a brincar na rua, pedindo “doce-doce” aos estrangeiros que encontram, enquanto os adultos, reunidos à beira da estrada, bebem e dançam.
Numa terra cheia de potencialidades, a cultura do “leve-leve” parece ter levado a melhor! O analfabetismo, a promiscuidade sexual e, acima de tudo, a falta de uma identidade nacional são outros dos problemas graves que parecem deixar este povo mergulhado num torpor do qual parecem não querer, ou não poder, sair. No final, serão sempre as crianças as mais prejudicadas… Daí que veja a nossa presença em STP como uma oportunidade única de tentarmos intervir junto das comunidades e assim podermos melhorar as condições de vida deste povo. Nesse sentido iniciei também nas duas últimas semanas, as visitas aos Postos de Saúde que funcionam numa rede integrada, denominada “Saúde Para Todos”, sob cordenação do Instituto Marquês de Valle Flôr. Daqui em diante, uma vez por semana visitarei estes centros distribuídos pelos vários distritos da ilha, para tentar fazer um levantamento dos problemas mais preementes e podermos programar algumas actividades de consultoria e de formação na área da Pediatria.

Na Cáritas as coisas já mexem e, contando com a ajuda preciosa da Maria João, Assistente Social voluntária que aqui permanecerá durante um ano, temos vindo a elaborar um projecto que se pretende que tenha continuidade pelos próximos anos. A todos os que têm demonstrado interesse em ajudar um grande obrigado. No entanto, peço-vos um pouco de paciência. Neste momento, dado que procuramos uma estratégia que permita uma colaboração a longo prazo, precisamos de perceber qual será a melhor maneira de participarem e, não temos ainda preparados os mecanismos para começarmos a receber bens. O mais brevemente possível dir-vos-ei como o poderão fazer. Para já, é com grande alegria que digo que, com o apoio inestimável da rede que me apoia no São João, conseguimos assegurar o envio de algum equipamento básico como balanças, estadiómetros e alguns medicamentos que fazem muita falta numa instituição deste género.

Mas, a vida nesta ilha tropical tem também muitos privilégios. Na companhia de pessoas fascinantes pude, nos dois últimos fins-de-semana, sentir o gosto do paraíso. Praias de uma beleza estonteante, desertas e com um mar quente ou caminhadas de horas pela selva foram experiências únicas para mim e que lembrarei com carinho por muito tempo.

A todos vós um agradecimento sentido pelos comentários carinhosos que têm feito e que me têm dado força para continuar a tentar fazer o melhor trabalho possível em circunstâncias por vezes bastante difíceis.

3 comentários:

Susana disse...

Olá Ricardo,
Muito Obrigada pela Partilha e Parabéns pelo teu Trabalho.É uma tarefa difícil, mas Sublime e, por isso, vale a pena.
Sente cada dia que passa como uma vitória!
Beijinhos e espero, em breve, continuar a tua obra...

Francisco disse...

Grande Ricardo,
Saudações cá do Norte e votos para que consigas desenvolver e aplicar o teu trabalho junto dessas crianças. E sem duvida que o amor e o carinho é mto importante para quem tão pouco tem.
Akele abraço com mta estima.
Francisco
ps: evita ler noticias sobre o campeonato português...lol

tigre disse...

Olá Ricardo.
Hoje lá fui espreitar o blog e em boa hora o fiz. Confirma-se essa experiência tremenda que antevíamos:) Entretanto, a grande reportagem está concluída!!! Deve ser exibida ainda em Abril mas depois avisamos...a realidade que mostramos é que fica aquém destes relatos, afinal, não ficamos tempo suficiente para tomar o verdadeiro pulso desse problema.
Bom trabalho!!!